sexta-feira, 25 de julho de 2014

Reticência

Moorland ridge sky - Tristan Campbell


As vezes, simplesmente me sinto distante
do que acontece dentro de mim
Como quem está no estrangeiro
sem comunicação com o país natal

Não sei se está uma guerra, ou harmonia

Apenas um eco distante da saudade de mim mesmo
um pouco de proveito do frescor dos novos momentos

Algo entre uma resignação com o passado
e reconciliação com o futuro

Mantendo a presença da sombra do medo,
da tensão do conflito constante

Ao longe trovões de tempos fechados
Antes da tempestade, a calmaria

No palco vazio, esqueci o papel que deveria atuar
Entre o medo de errar e a liberdade de improvisar,
fica a expectativa silenciosa da quarta parede.
De bocas seladas, todos são meus olhos

E não sei o que esperar de mim mesmo

...
 
    

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Revolver



Ergo sum.

Seria uma noite comum, seria uma noite qualquer.

Fui ao banheiro lavar o rosto e escovar os dentes antes de dormir, quando me deparo com o estranho do outro lado da lâmina com uma camada de amálgama de estanho. O desgraçado me olhava com desprezo tendo o cano de uma Walther P22, alongado com um silenciador, apontado para minha cara. Óbvio que olhei para trás e não tinha ninguém, mas não havia como, eu o via a minha frente. Sua postura era completamente outra e esbanjava um sorriso malicioso no rosto.  Sua camisa preta dobrada até os cotovelos passava uma elegância agressiva e seu cabelo arrepiado com pasta definia sua aura orgulhosa.

Perguntei o que ele queria, não obtive resposta.

Eu sabia o que ele queria. Ali, curvado lavando o rosto e me olhando de baixo para cima. Sequer para se levantar e me encarar nos olhos, me confrontar. De braço estendido o encaro nos olhos profundos e frágeis. Pediria para virar homem, se ao menos isso fosse capaz. Apenas esperava algo acontecer enquanto a água lhe escorria do rosto. Passivo. Reativo, como um pequeno animal. Não seria fácil fazê-lo, mas tinha de ser feito. De cabelo ensebados e espinhas estouradas seu rosto agora demonstrava o pavor que escondia, e em segundos já havia perdido o controle. Entre súplicas veio o desespero, quebrando tudo e tentando despedaçar a fina camada de vidro que nos distanciava.

Um baque. Os cacos de vidro caem lentamente. Um tiro. Da visão fragmentada vejo-o deitado do outro lado. Está feito, guardo a arma, estalo os dedos e o pescoço.

Depois arrumo esta bagunça.

  

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Paradise Lost



here lost with my thoughts
while my coffee is getting cold
I catch myself reflecting
how I was used to
think
how things never go right
at the same time
but remembering about the past
I've lived in this eden

well ...

at least I was feeling like that,
yet there is no perfection ...
Eva was unhappy
and I was the one to blame
then
I rejected all that divinity.
I've fell for my own choice
made a path through the fire
got problems with my black feathers,
always

maybe we just don't fit to the paradise
we make for ourselves
or maybe I just wasn't brave enough
to deal with my own happiness
although
nothing really changes
and that heavenly place is still there
in the same place it were before
inside my delusions
only

"that’s what I get for kicking
religion in the ass"
but I kicked the redhead too
we get what we deserve...
...no
it's all about what we can achieve
the sky was just too much for me
and found no pleasure in the underworld
isn't that where we supose to be?
after all
between heaven and hell
there will always be much more things wrong
than just
Melancholia

  

domingo, 13 de julho de 2014

Expresso



"Se ao menos lessem
tudo que não escrevo
tanto quanto ouço
o que não dizem..."

Cicuta

Desolate Plains Deserted House - Konijntje

Eu costumava conseguir justificar, achar o que culpar. Conseguia dizer porque me sinto dessa forma. Apontar um acontecimento ou circunstância que me levasse a esse sentimento.

Não consigo mais fingir que existe um porquê, alguém a quem culpar ou algo que possa sanar.
É complicado achar algo que te motive a lutar, quando não consegue mais compreender nada do mundo. Como se tivesse sido criado em uma realidade alternativa, onde nada se aplica. Simplesmente parece que cada pequeno traço de entendimento de mundo é uma grande confusão, um mal entendido.
Passar anos cultivando uma planta para descobrir que era urtiga. Resta apenas o inesgotável desconforto, aquela coceira na alma que você mesmo criou. Não basta apenas o tempo perdido, simplesmente se perde toda perspectiva de recuperá-lo. Não há caminho evidente, nem direção a tomar. É a total falta de sentido. Pra frente. Virou inércia, apenas vai, porque vai.

Costumava cobrar uma justiça divina, um acerto de contas com o karma, a dívida dos hipócritas. O único culpado é quem acredita nessa selva de ideias. Desejamos chorar, cobrar para que seja do jeito que acreditamos, pois já estamos com toda a estrutura montada nesse fundamento movediço. Não há resgate para um ser perdido na floresta da existência. Nada disso é legítimo, nenhuma lágrima é válida, nenhuma compreensão é merecida.

No fim, todos morremos sós.
 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Pérola Lunar

Enrapture - Audrey Kawasaki


Vaguei por tempos ao mar, perdido a esmo
Após um naufrágio me vi esquecido de mim mesmo
Numa ilha deserta fazendo das sombras abrigo
Até no horizonte avistar um barco amigo

Foram dias cruéis à deriva, sem norte
Enfrentamos muitas ondas e vento forte
Em um descuido, me vi novamente ao mar
A cristalina água iluminada, brilhava ao luar

Fui parar em meio a rochedos sinuosos
Então a observei pentear seus cabelos sedosos
Em meio aos tenebrosos mares do oriente,
Havia encontrado uma sereia sorridente

Sem falara nada olhou no fundo de meus olhos
À volta de tal belo ser, se vêem apenas espólios
Seu sorriso me convida e mergulho novamente
Finalmente ouço seu canto, me deixando dormente

Me hipnotiza devagar com seu doce charme natural
Seus olhos esguios me convidam à profundeza abissal
A sigo como que puxado pela correnteza da morte
Começo a crer que me fora um arroubo de sorte

Seria novamente um jogo de luzes da lua?
Para que me engane e meus sonhos destrua
Já envolto em breu, longe das luzes pálidas
Percebo as águas cada vez mais álgidas

Tola tentativa, desejo o gosto de teus lábios
Meus anseios nunca foram dos mais sábios
Olhando a minha volta, percebo uma centelha tímida
Em meio a escuridão encontro uma beleza reprimida

Subo vagarosamente, para que a pressão não me mate
Encontro a nau, recebendo-me com devido resgate
Os rochedos vão ficando ao longe e os perco de vista
Mas guardo a pérola comigo, para que o desejo resista

  

terça-feira, 1 de julho de 2014

i(a)mor.tais

Giardians of Time - Manfred Kielnhofer

um ode aos que
arbitrariamente persistem
mesmo sem um porquê
racionalizado explicar

tão raros os que
assumem suas apostas
de tão raras respostas
preferem acreditar

insistentes intuitivos
decidem sustentar
apesar da entropia
que afeta o amar

conhecem infinito na
finitude dos momentos
concebem o íntimo na
escolha de se doar

fazem da morte
uma simples distração
um velho relógio
a tiquetaquear

malucos desvairados
enfrentam o medo
da temível queda
que é se entregar

estranhos parentes
de sangue incomum
esquisito reflexo
a nos espelhar

insanos que topam
decididamente aceitam
que se fazem ser
optando por estar