sexta-feira, 18 de março de 2016

Ciência, uma religião?



Sempre que há um debate entre ateus e crentes, ciência e religião são postas como extremos opostos. Em muitas dessas discussões surge uma figura que critica os amantes da ciência como seguidores cegos da ciência, possuindo nela fé, como se fosse uma crença. Com isso em mente, decidi fazer uma livre exploração de como as duas perspectivas não são tão distantes quanto parecem.

Como toda narrativa mitológica a ciência também possui seu gênesis:



Para melhor entendimento, sempre bom definir, pois um grande problema de toda essa relação dicotômica é, por si só, a linguagem. Etimologicamente o próprio nome já elucida algumas questões. Ciência vem do latim scientia, que simplesmente significa conhecimento. Ter a ciência de algo. Objetivo naturalmente almejado por qualquer ser humano através de qualquer relação com linguagens que traduzem o mundo.

Primeiramente, a mérito de esclarecimento consideremos a Ciência em duas faces. O método científico em si e a instituição acadêmica ou a visão icônica do que ela representa, o peso da palavra, por assim dizer. E por ciência deixemos implícito o termo "ciências", para ter em mente os mais diversos estudos, não apenas exatas e biológicas.

Sendo assim, temos um método para compreender a realidade que nos cerca: de como adquirir informação, converter em conhecimento tentando eliminar o máximo de interferência e ruído, para que a informação seja o mais verdadeira possível. Como assim "mais verdadeiro possível"? Não existe verdade? Bom, tecnicamente... não. Verdade é um conceito sólido e absoluto. O que, por si só, já é impossível de existir em um universo em constante transformação. E mesmo as projeções mais precisas de suas transformações como a entropia, os ciclos astronômicos e atômicos, ou a expansão do universo, não possuem certeza absoluta de fatos futuros. Principalmente quando envolvem variáveis que desconhecemos. Então todo conhecimento é nulo? Não, meu caro, também não precisa cair no relativismo absoluto. Esse é o problema da contestação de muito discurso hiponga contra a Ciência. Só porque não existe 100%, não quer dizer que não consigamos 90%, 99%, e às vezes 99,999%. "Parabéns! Você é o pai!!!"

"Certeza é um sentimento, não um conceito absoluto."



Entretanto a Ciência é capaz de explicar tudo, preencher todas lacunas do conhecimento humano? O pensamento moderno acreditava que sim. Que a Ciência e o avanço tecnológico nos levariam para um mundo utópico, um futuro melhor para todos seres humanos. Se você puder algum dia conferir qual era a visão de Walt Disney sobre isso, ficará impressionado. Ele possuía essa crença tão arraigada em seu ser que é possível ver em um de seus parques, o Epcot, um brinquedo chamado Carrousel of Progress. Onde o palco gira com bonecos que demonstram os benefícios dos avanços tecnológicos com uma música bizarra de fundo. Parece mais uma lavagem mental digna de Admirável Mundo Novo.  Visão de mundo que fica também clara no filme Tomorrowland, que deixaria o pai do Mickey orgulhoso.

Nietzsche, assim como o levante de pensadores pós-modernos (que talvez já esteja sendo superados por uma Hiper-Modernidade), não  acreditava que a ciência e seus avanços poderiam nos salvar de nossa miserável existência:



A questão é: será que a Ciência pode preencher o espaço de um vazio moral ao derrubar a Religião? Se tornar um meio de compreensão do mundo que preencha todas nossos anseios?

Temos no método científico os pilares empíricos: o pensamento lógico, da racionalidade e da razão; e a experimentação (o mais universalista possível). A "experimentação" por si só (pôr algo à prova) nada mais é que uma dupla empírica; é ver com os próprios olhos uma segunda vez, ou mostrar aos olhos alheios a confirmação do conhecimento. Ou seja, em qualquer processo invariavelmente temos uma pequena dose de subjetividade, ao ponto que é um ser humano que faz ou idealiza o conceito e o põe a prova. É possível então que em qualquer experimento científico exista uma certa tendência a direcioná-lo para o que se acredita, ou ao que se quer acreditar? Bingo. Veja sobre Viés de Confirmação. Não bastando isso, números por números podem ser muito maleáveis, gerando teorias de pseudociência que enganam muitas pessoas pela gama enorme de argumentos para justificar qualquer tentativa de desmantelá-los. Tal qual uma hidra muitas vezes nascida da religião tentando sabotar a Ciência, como o criacionismo.



Mesmo nos livrando de todo esse ruído, temos um grande pepino que está atrapalhando até mesmo os avanços da física quântica: A percepção. (Físicos de plantão, não se preocupem, não vou dizer que a percepção altera diretamente a realidade. Sei que não é bem assim.)

“O Tao é o Tao. Qualquer interpretação do Tao é apenas uma interpretação do Tao, nunca o Tao em si.” - Ditado taoísta

Justamente nesse ponto as fronteiras ficam embaçadas. Já que, assim como a Ciência, todo o conhecimento humano do mundo provém de nossa relação com ele (Muitas vezes não só tangível e empírica, é fato). Tais como as experiências puramente pessoais e individuais, vivências que não podem ser compartilhadas, sendo assim a base a própria consciência em si. Ou então as experiências grupais onde mais de uma pessoa relata a mesma experiência, seja sobrenatural, paranormal, metafísica, espiritual e o escambau. Essas circunstâncias são puramente momentâneas, e se compreendidas pelo viés científico são observáveis apenas como conexões sinápticas em um aparelho de ressonância magnética. Sem qualquer significado. Muito longe do significado que parece ter para os que experienciaram a sensação.

Existem portanto experiências impossíveis de se avaliar através de um método (por enquanto), e do outro lado um método que mesmo que seguido, depende de nossa empírica. O que é um experimento científico que acontece em uma sala escura e sem som onde ninguém entrará ou verá os vestígios que deixou?

“Se uma árvore cai no meio da floresta, mas não há ninguém lá para ouvir, ela faz barulho?” - Koan Zen

Chegamos assim às religiões. Religião vem do latim religare, ligar novamente com (no caso) Deus ou deuses; o divino (em alguns casos de forma mais abstrata). Portanto, se faz inevitável a necessidade de definir Deus, o qual possui várias facetas, algumas vezes isoladas. Em várias religiões podemos encontrar o aspecto social e regulamentador, assim como seu aspecto natural e universal. Diversificando em outras culturas com uma divisão dos aspectos naturais e sociais em vários deuses, cada qual com sua relação específica com a natureza e com um comportamento humano. Por um lado então, podemos dizer que Deus é a natureza das coisas, e por outro que é um alinhamento de percepções; de almas humanas. Não à toa existem expressões como “a voz do povo é a voz de Deus”, e o que é onisciente, onipresente e onipotente na vigília dos atos humanos e em suas realizações, senão eles próprios?

Reality Tunnel – Vanessa Waring

Já numa perspectiva antropológica. Como bem sabemos, existem vários deuses e várias culturas. Portanto, várias verdades relativas ao interesse de cada povo. As quais sociólogos e antropólogos dirão que são definidas através do convívio com o meio ambiente em questão e seus fatores sociais. Em um mundo que não era todo conectado, em uma mesma região havia a forte tendência de existirem pessoas com o mesmo modo de ver o mundo, quando comparados a outros povos. Ainda assim muitos estudiosos encontram representações análogas de mesmos conceitos trabalhados de formas diferentes. O que levou Jung a teorizar sobre o inconsciente coletivo e Campbell gerar o conceito da Jornada do Herói, O Monomito.

Para além dos padrões, poderíamos dizer que a religião também possui um método? Bom, se observamos atentamente, veremos em todas doutrinas religiosas e espirituais uma liturgia particular em cada uma. Todas possuem seus dogmas e paradigmas, assim como suas rotinas e métodos a serem seguidos. Procedimentos que vão desde uso de medicinas (ervas) à definições de espaço e tempo apropriados para a execução de orações, por exemplo. Muitos dos métodos são para que se alcance a o estado mental necessário para que haja a compreensão dos simbolismos de cada crença, muitas vezes através uma conexão puramente emocional com o universo, a natureza, os outros humanos ou consigo mesmo. Possuem seus  manuais, suas regras, seus preceitos e doutrinas.  E aí entramos na linguagem. A ciência e a religião são manifestações de uma mesma origem: o ser humano aprendendo a linguagem do universo. Do que se compõe suas regras, o que ele pode nos dizer. Assim como um bebê faz ao prestar atenção em seus pais e tentar balbuciar algumas palavras. Tentamos desde os primórdios ler as mensagens, entender seus códigos, ter controle sobre eles e reproduzí-los. As mesmas filosofias delirantes e confusas, com previsões do futuro e mensagens divinas, deram vasão a um entendimento do mundo, seus ciclos e padrões. No passado achamos que estrelas cadentes seriam presságios de catástrofes, ao mesmo passo que compreendiamos o que diziam sobre os ciclos naturais. O método nada mais foi que a seleção natural do conhecimento, os que acreditavam nas profecias de invernos frios e necessidade de peregrinar sobreviviam e os que acreditavam nas profecias de que seriam capazes de voar por nascerem no alinhamento de uma estrela com outra, morriam ao cair do penhasco.

Apesar de parecer que ela se encerra escrita em pedra, a religião tem se moldado com o tempo e adaptado sua visão de mundo. As culturas antigas se mesclaram e sincretizavam suas crenças, a bíblia foi escrita em várias partes e podem ser analisadas suas possíveis influências mitológicas. Curiosamente o cristianismo não negava boa parte das crenças discordantes, ao invés disso, as re-significava, demonizando-as. Acontece que tais debates ocorrem em uma cúpula fechada e de forma extremamente limitada e resistente a mudanças na velocidade que nossas descobertas demandam.

Muitos acreditam que a Idade Média foi um período perdido de total ignorância, que todas as religiões primitivas não entendiam nada do mundo e que toda metafísica é pura alucinação. Entretanto, todas as ciências que hoje possuímos partiram de estudos desses povos, e pasmem, muitas vezes vieram de ambientes religiosos. Desde a escrita e o desenho, com fenícios e sumérios, como a matemática para os egípcios e povos árabes, a mãe da astronomia, a astrologia, para os gregos, maias e orientais e por aí vai. Até termos como base do surgimento de ambientes acadêmicos (os quais são as principais estruturas para o método científico) surgindo fundados por igrejas, e até hoje ainda sendo vinculados a elas. É de confundir qualquer neo-ateu essa ironia.

Céticos e cientificistas gostam de separar o mundo entre “natural x artificial”, mas não gostam que confundam com a dicotomia “natural x sobrenatural”.

E se eu disser que é a mesma coisa?

Parece que uma grande metáfora não foi compreendida através dos milênios…

Aqui cabe um pouco de Platão em questão, o pai da perfeição e toda a maluquice que temos hoje (pelo menos na visão dos historiadores ocidentais). Curiosamente ele separavaa realidade entre o mundo tangível em que vivemos e o mundo das formas perfeitas, o mundo das ideias. Surge a metafísica, aquilo que está para além da matéria. E quando pensamos em debates sobre o que existe ou não existe ao teorizar Deus, comparamos erroneamente com algo tangível. Como um bule voando ao redor de Saturno. Entretanto, podemos fazer abordagens muito mais próximas e diretas. Você pode me provar que ideias existem? Conceitos? São tangíveis? São reais?

"Poh!, então está dizendo que Deus é apenas uma ideia? Uma ficção? Pura invenção?" Tecnicamente... não. De forma simplista podemos até dizer que é um alinhamento de ideias, emoções e percepções de mundo, alcançado pelos estudos de várias culturas e religiões. Existe aí um fator de pensamento em conjunto tão complexo quanto o científico, mas não está direcionado para o tangível, a natureza de como as coisas são. Mas sim, de como se direcionam moralmente a fim de vir a ser, um construto do combustível humano que intuitivamente sabe o que o move em direção ao que deseja ou precisa. Articula a realidade em prol dos interesses de uma maioria, de um líder ou uma vontade coletiva.

Se disseram que é científico então é verdade.


Como a Ciência pode ser parecida com a religião e como a ciência, tão mais sóbria pode perder sua credibilidade?

"Ora, ela é imparcial, preocupada apenas com a compreensão do mundo. Não há crença cega ou hierarquias baseadas no aprofundamento de seus paradigmas que excluam outros pontos de vista..." Será?

Vamos desconstruir um pouco. Por mais que muitos dos citados articulem a necessidade do ceticismo e do método científico, é assim que a maioria corresponde? De todos os conhecimentos científicos que você possui, quais deles você fez um experimento e comprovou sua veracidade? Quantos deles não chegaram até você apenas porque um livro disse e você então aceitou? Quantos argumentos você não ouviu, e depositou sua fé de que eram verdadeiros por supostamente serem científicos?

Nos tempos atuais ela chega a se parecer com uma seita, com seus mártires e evangelizadores. Não que isso seja ruim ou desqualifique a qualidade da Ciência em compreender o mundo,  o  que também não a impede de possuir uma estrutura com séquitos, padres, crentes, paradigmas, tabus, etc., entende? A Ciência tem aprendido que a racionalidade pode ser o melhor caminho para o entendimento, mas que para convencer as pessoas, necessita de emoção. Pregação! Ser capaz de inspirar as pessoas.



A Ciência (ou academia) como símbolo institucional começa a mostrar suas falhas, cada vez mais exploradas por interesses de pessoas, grupos e (principalmente) corporações. Se mostra cada vez menos como aquilo que salvará a humanidade ao se afastar da moral, e acabar caindo na mão de interesses práticos. Não há o incentivo de estudos em prol do bem de todos, e sim do lucro. Já teríamos muitas soluções para muitos problemas se não houvesse no meio acadêmico a dependência do capital, que vem de organizações privadas visando unicamente uma visão mercadológica. Ou então, pior, imaginemos que falsos conhecimentos sejam gerados, a fim de iludir milhares de “estudiosos”, patrocinando palestras e debates para fazer com que vendam seus produtos, deixando-os amarrados as marcas que lhes fornecem benefícios e incentivos tais quais mafiosos. Claro, só uma ficção, digamos que não acontece com médicos, psicólogos, dentistas, químicos, etc. Pura ficção não é mesmo? É possível que no meio de tanto ruído, interesse, ignorância, manipulação, fé; parem de usar o nome da Ciência em vão?

Como se não bastasse, o "jornalismo" ainda usa para mérito de entretenimento. “Estudos apontam que quem ouve rock é mais inteligente” Puro clickbait. Gerar buzz nas mídias sociais, compartilhamentos e acessos.

Qual a solução para essa dissolução do valor da verdadeira Ciência? É falta de Deus no coração? Talvez… sim. Só que não da forma que pode estar pensando. Em diversas religiões, principalmente as orientais e filosofias esotéricas, o caminho para encontrar deus é através da compreensão, da experiência, da vivência e do estudo do mundo a despeito dos paradigmas. Ou seja, falta a valorização do estudo e do conhecimento, principalmente a percepção do conhecimento alheio. Pois conhecimento é poder.

O obscurantismo da idade média não foi da lógica, mas do poder. Não havia o interesse de que outros adquirissem o conhecimento centralizado por eles. Monges cristãos, por exemplo, eram extremamente estudiosos, porém somente eles sabiam ler e escrever. Entretanto, sempre existiram os lúficers prometeicos (revolucionários), aqueles que roubavam o fogo (poder / conhecimento) para compartilhar aos homens. Os estudos que se espalhavam à margem do poder centralizado receberam a pecha de "ciências obscuras", ocultismo.

Ainda hoje existe a interpretação da espiritualidade como a conexão com o divino numa busca própria, e a religião como uma instituição, que é a conexão com o divino na aceitação de poderes superiores. Talvez falte refazerem a conexão das ciências, das relações de poder e do conhecimento. Para não dar margem ao diabo da pseudociência, das conspirações absurdas, da mentira e da manipulação de uma massa sem Deus. Nos religar ao mundo natural e espiritual, metafísico / moral. No religar ao conhecimento.

“Quanto mais próximo da Igreja, mais longe de Deus.” - Lancelot Andrewes

Conhece-te a ti mesmo. Tanto acima como abaixo.


O que nos liga à natureza e ao código moral? A busca pela experiência. Esse é o grande método. No fundo, todas religiões buscam aspectos similares, facetas do divino que é essa dialética com o mundo. Essa relação com a compreensão do universo. De forma que, por esse aspecto, podemos dizer que as grandes religiões, as filosofias espiritualistas, o ocultismo e a Ciência podem levar a caminhos bem próximos. E que no fundo, são como as mesmas palavras, em diferentes linguagens. Os que dizem que a ciência não lida com moral, parecem elevar apenas as ciências exatas, e não os estudos de humanas na construção dos códigos morais a partir de filósofos, debates, aplicações práticas e observações. Afinal, o estudo de Direito, das leis e da ética, é um estudo de debates lógicos, embasados e socialmente testados, e rege a moral humana em geral acima da religião (num estado laico, "graças a Deus"). A não ser que você more sob a Sharia ou acredite que as igrejas merecem o direito de questionar o STF. Por isso que a invasão da bancada religiosa é um retrocesso. Desconsiderar os benefícios do Estado de Direito acima das religiões.

No fim, a religião é a base primitiva das estruturas atuais que temos, como desconstruir os conhecimentos recentes. É o mesmo que um católico voltar ao código de hamurabi, a igreja voltar à inquisição. A Ciência (ou as ciências) pode ser a nova religião, e como todo sincretismo, naturalmente se alimentou de todas outras e se faz natural que vá investigar os fenômenos sobrenaturais, e se aventure nos campos dos quais não consegue compreender (apesar de só render matérias na Superinteressante). É o melhor que temos até o momento. E hora ou outra, será superada, ou melhorada, ou terá o nome trocado e considerada obsoleta por um vertente que bebeu de todas suas fontes. Em geral ela está em constante colapso em todas as áreas de estudo, uma tese derruba outra, um paradigma é subvertido pela experiência ou por uma nova geração de estudantes. Em qualquer uma das áreas acadêmicas, os mosteiros modernos.

“Transferência de medo e autoaversão a partir de um receptáculo autoritário. É catarse. Ele (Pastor) absorve o pavor deles com a narrativa. Devido a isso, ele é eficaz em demonstrar a convicção que consegue projetar. Antropologistas linguistas acreditam que a religião é uma língua-vírus, que refaz caminhos no cérebro e entorpece o pensamento crítico.” - Rust Cohle, True Detective.

O cérebro humano compreende melhor o mundo através da linguagem. É como ele codifica, recodifica e transcodifica sua realidade. Toda a existência humana é feita de narrativas e meta-narrativas, geradas das relações das diferentes perspectivas e a busca de uma unificação universalista da perspectiva de todos.

Talvez o desejo da existência de algo, seja a pura manifestação dessa existência, burlando a trama do espaço e tempo. Talvez sejamos os criadores a mantenedores de nossa imagem e semelhança. E como diria Neil DeGrasse Tyson, talvez a busca do sentido da vida, seja por si só, o sentido dela. Talvez sejamos a concepção máxima da complexidade da existência do universo a fim de compreender a si mesmo.

A Ciência talvez seja uma religião, um alinhamento de percepções ampliando o conhecimento sobre o universo, provavelmente o melhor que temos até o momento. Só não confunda ceticismo com crença numa negação absoluta sem qualquer abertura para outras possibilidades. Se é uma religião, não sejam extremistas porque, em geral, eles estão cegamente errados.

Para finalizar, deixo as palavras do sábio profeta Bilu:

“Apenas que… busquem conhecimento.” – Bilu, ET

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Cosmos

Milky Ways - Breath, Mihoko Ogaki

Compreendo
a mim mesmo
Lendo todos
os signos

Da órbita celeste
no universo do
meu ser

Algo entre
a curvatura do céu
e a órbita de meus olhos

Algo entre
o encontro de meu reflexo
e a deriva nas sombras

.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Esvaindo

Skool daze - Paul Brown


Algo  se perdeu no cam nho
D s átomos que um d a fui
Não me s bram nem mes o um
O que me co stituia, fazia-se pleno
N  entanto ag ra me perco s reno
Simpl smente nã  sei quem e a ou
Quem s u; qual camin o seguir
Ou o qu  rec perar do q e sobr u
Sinto-m  esv indo, sem dei ar traç
Logo ser i po co, um des mbar ço
Men s d  q e  s u, me os do que fu
V z u, sem s bstâ cia, s m pal vr s
P rdi o no q   nu ca f i, e no q e n o ser i
At  ão  s r ma s n d
S  é  u   m d  a f  i

.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Adição

Temples #2 - Robert Gaudette
Acredito existirem céus;
As vezes vendes me visitar
Quando não sou eu que vos procuro
Encontrando-os em vosso olhar
Atroz é ter de lidar posteriormente
Com os infernos aquém e além

A noção obscura que há,
Assim como o exagero,
Do mau do mundo e de mim mesmo

Tal como a melhor das drogas,
Me afasteis de meus círculos internos
Com vossa estada paradisíaca

Insólita presença, qual absoluta
Pois sois muito mais que uma
Ainda mais quando a mim vos una
Na totalidade de aspectos
Me inunda

Uma certeza me assola
Que de tão sublime consonância
Perdê-la-ei sem azo revindo

Se faz ser pelo viés da ilusão
Mas não me importo, ou tento
Aprecio a poesia do momento

Apenas me contemple
Noutra dose das brandas
De vosso viciante sorriso
Aceita comigo minhas sombras
E vendes com elas dançar

.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Breve

"Forgetting Is the Only Continuum"- David Regen; foto por Mel Bochner's,  Gladstone Gallery

Decidi escrever para ti
Que nunca fora poema
Já evitando a dúvida:
Não lhe é por pena

Sendo assim, por respeito

Acalma, criança
A dor que lhe pesa o peito
Acalma tuas expectativas
Pois são de tua autoria

Acalma, criança
Tuas ânsias imaginativas
Não transformes brevidade
No martírio de uma vida

Aceita, criança
Que a metafísica de teu mundo
É puramente tua, e some
Se quiseres; em um segundo

Aceita, criança
O futuro que lhe espera
Abandonando o cadáver natimorto
Nunca fora; seja contigo sincera
Senão o que querias que fosse

 Não cries âncoras em penas
Fora leve por traço do destino
Sem promessas ou compromissos

Se lhe negam o que ofereces
Não conseguirás o mesmo efeito
Atirando-lhes os pedaços
Persistindo no que não tem jeito

As vezes nos entregamos 
Ao que gostaríamos que fosse
Sem enxergar tudo o que não foi
Sobrando amargor, contanto fora doce

Então acalma
Não atires pedras no espelho
Por ouvires mentiras de si mesma

Então aceite
Porque o mundo é um moinho
E nas voltas da incertezas
Terás novamente os pés no chão

Te desejo então, criança
Que encontre nos versos que diz
Novos encantos; Algo que,
Conquanto
Esquecendo o passado
Abandonando teu pranto
A faça feliz

 .

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Sabores

Original: Sushi Mermaid, por Roberta Oriano 

Sempre tive gosto pela culinária japonesa
Porém teu sabor ampliou meu paladar
Despertou-me sensações jamais sentidas

É de toda completa, deveras equilibrada
De apreço estético na apresentação
Leve de se provar, com suave crocância

Tuas poucas palavras são al dente
Recheadas com emulsão de sinceridade
Acompanhadas de suculentos beijos
Temperado nos mais belos toques

Poderia apostar que jogaram a receita fora
Absolutamente única em sua composição
No encontro de nossos paladares
Harmonizamos perfeitamente

.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Azedume




No dia que entreguei meu coração
Mostrei meus dentes afiados
Não se deve dar um presente
Com receios amargos

 Ao invés de um doce sorriso
Errei por deixar um tom azedo
Contradizendo meu próprio sentir
Me entregando de súbito ao medo

 O sorriso que me encanta
Roubei sem o menor zelo
Comportamento que me espanta
Não pretendendo voltar fazê-lo

 A covardia nos transforma
Nos faz correr riscos sem benefícios
Corrompendo a forma sem sacrifícios

 Por entre os rabiscos desse paraíso
Quase acabei com o encanto
Porém uma coisa garanto
Com minhas dúvidas, terei mais juízo

Já não só acho
E sei que é tanto

.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Têmpera

Embrace Impermanence - The Pier Group (for Burning Man festival)


Só a paixão para tal
de tão rígido
converto-me em líquido
metal abrasado
por tua incandescência

Quero ser
o que tu desejares
dentro daquilo que
já sou

Não, não mudo
por nada, por tudo
mas sou muitos
muitas palavras

Me compres
e escolha o produto
que mais lhe agrada
no mercado de minhas
complexidades

Entre meios
sou caminhos

potencialidades
sou escolhas

maquiavelicamente
tendo a ti
como fins

pois
Tu justificas
tudo aquilo
que posso ser

Minha desculpa prefeita
meu combustível ideal


.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Disruptura

Feeling Material - Antony Gormley 


Momento catártico, libertação,
No voo, no vou, apesar do fui
sangria que é a alma.
Se é que há'uma

Quando já não nos importamos
com nossa própria estranheza
perante nós mesmos. O mesmo.
Mergulho sem fim
enfim

Mais bela âncora de chumbo
Adentramos uma nova atmosfera
acelerando segundo por segundo
Estrela cadente
ardendo na chama da vontade;
à vontade

Transformamo-nos
ainda mais singulares
em uma cadência vibrante
até alcançarmos
a verdadeira essência;
Insistência

Num distanciamento
da realidade em cimento
nos coroamos mais reais
do que as ilusões de realidades
mais verdadeiras.

Peculiares;
Perdemos o tato com os códigos,
sujando as mãos com o construto
de uma nova codificação.

Do alto da montanha, somos lunáticos
dançando ao ritmo de uma música
que ninguém mais houve
até que os façamos ouvir
para que se faça haver

entre o autêntico e o louco
Assumindo sua inexistência
do que fora, de fora;
o que virá a ser,
de nosso
ser

Eterna prática
de uma existência
essa ciência
poética
para além das próprias
fronteiras

há quem?

para aquém

de si?

.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Crime Passional

Kiss dont kill - Banksy


Antes fosse
Roubo
Mas foi assalto
A mão
Amada

Era se entregar
Ou morrer arrependido

Foi golpe,
Armadilha.
Prometeu sorrisos
Acabou por me tirar
Até os beijos

Me deixou sem nada.
Fazendo tudo
Na maior calma
E ainda vandalizou
Pixou seu nome
Em minha alma


.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Idiossincrasia humana


amar faz todo sentido

sentir

por que,
me sinto verdadeiro
na mAis ardilosa mentira?
não há transparência maior
que o cinisMo
as maiores falsidades
são: educação e bondade
não choramos por sentir
mas pAra que não saibam
que não sentimos
persistimos disfaRçando
verdades que ambos sabemos
amenizando as dores do jogo
organizando o caos
caos
pintando o ruído
com sons aritmÉticos, éticos
nessa lúdiCa guerra de realidades
todos sabem a verdade
ignorância nada mais é
que o deliberadO ato
de ignorá-la
nos iMpor através de inverdades
a hipocirisia é um dos mais belos
atos de humanidadE
assumí-la, quebra toda a magia
então eu minto
minto que sou hipócRita
sendo o mais honesto
em minha hipoCrisia
entende?
não
não estou ficando louco
talvez você que delire
com o conceitO de sanidade
arranhe a luz para se fazer ouvir
de som opaCo e nenhuma textura
sem os sabores brilhantes
ou o cheiro do sol
nesse quarto vazio
ecÔo
acolchoado pelo colo dos anjos
não ouve as vozes
não percebe os gritos
não vê as sombras
na verdade você nem existe

já te falei sobre a verdade?


.

terça-feira, 10 de março de 2015

Leviatã


não quero, de modo algum
aquilo que é teu
mas me dói 
não chegar nem perto
do que te sobra
quem dera ficasse 
nem que fosse com os 
restos

as vezes me consome
não entender
porque não mereço

o que me faz insuficiente
não o bastante
incompetente

antes fosse 
só a migalha do pão
vejo farelo por toda parte
de corações

lhe sobram oportunidades
materiais
afetivas
as significativas

ainda assim
me dignifico a dar-lhe
tudo aquilo que me falta
sem ter sequer esperança
de algo em troca

meus olhos erguem-se
e vejo uma longa cadeia
acima de ti, olhas 
para outros
com olhos tão verdes
quanto os meus

então me vêm a consciência
de que abaixo
há um mar de olhos
a me fitar

.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Arte em pó



Por vezes é estúpido
investir tempo em poesia

Como carpideiras da vida
que ignoram
a própria entropia

Como jogar perfume
na correnteza de um riacho
Um ato de insana beleza
e trágica efemeridade

Mas os poetas
são o inútil brilhar
de estrelas em um céu
onde a escuridão
sempre vence

.

quarta-feira, 4 de março de 2015

A Náusea

Great storm in the Downs by Frederick Whymper

Sartre foi sábio em assim definir tal conflito existencial. Esse enjoo de si mesmo, perda do tato e intelecto embrulhado. Uma maresia moral proveniente do balanço do mundo. Dos mundos, internos e externos. Eco de um âmago ulcerado, ainda não supurado. Vontade de se esvair em vômito o vazio que há dentro.
Talvez os caminhos da mente sejam traçados em mares revoltos, por naus que, quando sortudas, aportam e lá ficam. Vida em alto mar facilmente leva a ruína. Perda do norte. Naufrágio em seguida.
- Mas que ansiedade! É só o balanço do mar. Pior seria, se balanço não houvesse. De nada serve prumo, sem vento na vela.
- Este é o problema! Não o há; e esse balanço do mar, a nenhum lugar nos levará.
- Ao menos já passou a tempestade.
- Ou ainda está para chegar.

.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Escripta



Confeso
talvez o simplez
seja demaziado complicado
mudar por mudar
ou intervir no fato

confeso qe falo
ajo sem saber
e qem sabe?
mas só axo
qe devia ser
maiz fásil

se az palvraz fluisem
como se julga natural
deveriam então
ser diretaz
sem titubear

é lindo complicar
elitizmo ama dificuldade
poiz só com ela
pode se diferensiar

levantar a bandeira
do serto ou errado
quando não se pauta
na maiz pura lójica
se tem apenaz
uma arbitrariedade
do maiz simplez poder
o poder da linguajem

poder este
qe marjeia
a realidade
bloco por bloco
vogal por vogal
diresionando o olhar
construindo a persepsão

real é só aqilo do qual
não se pode fujir

todo resto
são códigoz

az pesoaz se perdem
naz impermanênsiaz

Talvez incomode, tentar mudar
pensam ser preguiça de aprenhender
ou pura perda de tempo
apenas mais um joguete

parecem nunca questionar
a realidade que lhes fora
montada
uma phorma de ver o mundo
que há muito o precede
pré-fabricada

assusta ver o mundo
por outra perspectiva
ainda mais
quando a construção da própria
fora assim, tão dolorida

Mal sabem que antes não era assim
a tão bela orthographia
num abysmo de desconhecimento
desse enorme paiz, Brazil

a esthetica graphica
fora por deveras differente
entretanto quem somos nós
para levar tal assunto
tão a sério

deixemos que a língua portugueza
siga e permaneça
esse eterno mysterio

.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Insatisfeito

Troublemaker - Nick Ray McCann


Já fazem meses desde a fissura latente, mas não lhe darei os créditos por roubar o meu sentir. Algo deu muito errado no processo que me formou. Me tornei casca grossa.

Nada me cansa o suficiente, não costumo suar. Pareço ter uma resistência a dor fora do comum, é o que me disseram quando arranquei os quatro sisos de uma vez. Nunca chorei por um livro, ou um filme de romance ou drama. Na procura por uma crença, me tornei cético e perdi todos os medos que nos tornam humanos, o diabo está de prova. No primeiro gole inocente de um uísque dos fortes, sequer fiz careta. Já dormi dias no chão, passei dias sem comer, ou mesmo dormir.
E nada. Vivo como uma alma penada.

E você está ai, vívida. Não consigo entendê-la. Como pode viver esse cinismo hedonista? Esse brilho eterno de uma mente sem lembranças.
Não que eu não chore, não me emocione ou viva. Já me perdi em sentimentos demais, geralmente se manifestam em fixações obsessivas. Mas não mais. Agora nada satisfaz.
Uma lágrima escorre pelo hematoma roxo amarelado na maça do rosto.
E nada sinto.

Seu corpo em exercício intenso, tornam sua alva pele em um rubro manchado. Tão delicado quanto uma gema sangrenta, fluindo misteriosamente. Quase como uma reação alérgica ao prazer, ou a dor.
Faço um corte superficial, deixando deslizar o rubro néctar.
E nada sinto.

Seu olhar sempre fora pura fúria, ou total indiferença. Até mesmo seu amor, era uma manifestação da sua odiosa natureza. E seu perdão, parte do seu rotineiro desprezo.
Com um corte mais firme retiro a pele tal como a manga de uma camiseta, deixando a carne exposta em toda sua majestosa viscosidade.
E nada sinto.

Sua voz, macia feito um coração de alcachofra, é repugnante sem o tempero de suas emoções mais intensas. Sempre me arrepiou.
A cada peça de músculo que removo, misturada com ligamentos expõe os nervos, que traduzem como eu sempre me senti. Exposto, sensível.
Sensível como meu sexo, lhe usando a meu bel prazer, enquanto toco sua carne tenra.
E nada sinto.

Engulo, pouco a pouco, o sabor do seu pecado, assim como sempre engoli suas ofensas. Praticamente um esqueleto convulsivo. Já não parecemos tão diferentes. As tripas não possuem a assinatura de sua personalidade e fica difícil ouvir seus gritos enquanto se engasga em sangue.
E nada sinto.

De estômago cheio, me sinto igualmente vazio e não alcancei satisfação alguma. Simplesmente não consigo sentir, talvez seja melhor assim. Talvez você seja a culpada, mas então estamos quites. Aposto que não lhe sobrou muito...
o que sentir.

Sinto muito.

.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Lúcifer romântico

The Flesh of Fallen Angel by Straightgunner


O quadro clássico daqueles em estado depressivo em muitas vezes, é um problema de desajuste. Do não pertencimento à sociedade, o que metaforicamente seria estar longe de deus. Não incomumente acabam por seguir caminhos opostos ao da voz do povo. Seja por serem mais inteligentes, mais burros, enxergarem o mundo com mais clareza ou ruido. Perspectiva.

Infelizmente a alma humana possui suas necessidades, e há em sua natureza a necessidade de pertencer. Fazer parte, conectar. Aqueles perdidos, desajustados e desencaixados; descrentes de quase tudo no mundo, acabam muitas vezes depositando sua fé em um pertencer mais minimalista. Com a dificuldade de se encaixar em toda a trama de exigências e expectativas da sociedade, tais almas perturbadas acabam por escolher se encaixar, pura e simplesmente, com um único ser. Os malditos românticos.

As conexões acabam por ser desnecessariamente forte demais, assim como a esperança por aquele que o compreenderá plenamente se torna um pensamento recorrente. Alguns encontram felicidade através dessa prática, muitas vezes não por muito tempo, porém esse é o caminho mais difícil e muitos sobram nessa estrada sem mapa. No fim, talvez seja pior depositar suas esperanças em pessoas do que em ideias, por mais que elas sejam tangíveis e reais, diferentemente das ideias. Justamente por serem reais, estão sujeitas ao tempo, à mudança e a morte. E nesse platonismo, acaba por se esperar a materialização de uma ideia em uma pessoa. Que seu verbo se faça carne e te livre de seus pecados.

Your own personal jesus, someone to hear your prayers, someone who cares.

No fim, o sistema de funcionamento da máquina humana se mantém, e o desajustado acaba por aumentar sua distância da sociedade, o paraíso de onde poderia surgir seu redentor, com a qual precisa se lançar para barganhar relações, a fim de encontrar A pessoa. Deixando-o a encarar o abismo mental que se formou entre sua insatisfação e a realidade. Entre o que as pessoas podem lhe oferecer e os anseios mais profundos de seu coração. E não há cura para o desajuste, ele acontece naturalmente. E sobra ao desajustado seguir sua natureza e tentar conquistar suas expectativas sem nenhuma bênção para ajudá-lo.

É solitário andar à sombra de deus.

.

   

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Possuída



Dançamos.

Te trago a minha terra, entre o fogo daqueles iguais a tu. E dançamos. De corpos colados em movimentos firmes, dançamos com postura, com precisão. Te conduzo por movimentos suaves e bruscos, ao ritmo dos estalos da chama. O piano toca sozinho e o baixo acompanha. Lá em baixo estamos. A curiosidade te trouxeste aqui, e não se arrependes. De face colada uma a outra dançamos segurando cada qual uma ponta de uma lâmina. A gilete entre nossos dentes dão o clima da tensão. Não podemos errar os passos, não podemos largar até que a música acabe.

Ao som da última nota tu sorris, soltando a lâmina, que então brinco com minha língua. Em um giro de bailarina percebes que nos encontramos em teu quarto. As cortinas estão em chamas, o papel de parede queima como embrulho de presente, daquele seu natal perdido. Da janela aberta se vê apenas o breu absoluto de uma madrugada coberta pelo véu da fumaça. O calor do quarto disfarça até a frieza de meu sangue sob a pele ardente. Sem demora as paredes já são barreiras de fogo incandescente, produzindo um manto negro que flui pelo teto. Não é pelo calor, mas já estás derretida. Deitada, observa com olhar sonolento enquanto manejo a lâmina com precisos cortes, deixando-a nua.

Jogando a lâmina de lado, escorrego meu corpo até meus lábios tocarem os teus. Com o peso do meu corpo sobre o teu e minhas mãos te envolvendo, já estás totalmente entregue a possessão. Que se dá lentamente, enquanto meus lábios tocam todo o seu corpo, parte por parte. Logo, em minhas mãos se encontra uma corda negra e teus olhos brilham. Peço que fique de joelhos. A textura áspera da corda desliza suavemente sobre corpo, dando voltas e pressionando pontos específicos. Te deito de costos para cima, e intercalando entre beijos e mordidas, prendo tuas mãos e pés. Totalmente subjugada, agora estás pingando; não só de suor.

Te meço e avalio, com uma vara de cane em mãos. Tua alma possui muitos pecados para expurgar, e como um caído, servirei devidamente à meu propósito. O primeiro acoite é bem forte, aproveitando enquanto não está com a carne dormente. Os golpes subsequentes distribuem bem a dor, por toda a tua bunda. As marcas ficam evidentes e sua virilha se mantém contraindo pedindo pelo alívio. Sentes seu cabelo ser puxado, ao mesmo passo que algo desliza para dentro de ti. Uma lágrima de alívio e prazer lhe escorre pela maçã do rosto, segue pela mandíbula e desliza pelo pescoço. Dedos firmes envolvem seu pescoço enquanto sentes impactos rítmicos no quadril. As beiras da cama começam a pegar fogo, mas é em ti que arde algo. Teu quadril se mexe involuntariamente, tua coluna se contrai e uma explosão de prazer te deixa a ter contrações por todo o corpo.

Nos noticiários do dia seguinte foi anunciado um estranho caso de combustão espontânea.

.